Altered Carbon | Netflix: ele retorna após 250 anos em um novo corpo

Altered Carbon é uma série de ficção cyberpunk, original Netflix, lançada em 2018.

A ficção científica tem sido aposta, tanto da indústria cinematográfica, como também deste serviço de streaming.

Por exemplo, a nova versão de uma antiga série de ficção científica, Perdidos no Espaço, foi lançada pela Netflix, também em 2018.  Outro exemplo é a excelente série britânica, Black Mirror, de 2011, em sua quarta temporada, na Netflix.

A série Altered Carbon foi adaptada para a televisão por Laeta Kalogridis.

Isto porque a série foi baseada no livro homônimo do escritor inglês Richard Morgan.

Além de produtora, por exemplo, em Avatar, de 2009, Laeta Kalogridis, também escreveu vários roteiros de sucesso. Ilha do Medo, de 2010 e O Exterminador do Futuro: Gênesis, de 2015, são exemplos disso.

As filmagens foram feitas em Vancouver, British Columbia, no Canadá.

A primeira temporada que estreou em Fevereiro de 2018, conta com dez episódios de uma hora de duração.

Contudo, a Netflix anunciou a segunda temporada com mudança do ator que interpreta o protagonista principal. A segunda temporada contará somente com oito episódios.

Altered Carbon: O enredo

A série Altered Carbon se passa em um mundo futurista, no qual a morte não é mais uma realidade. Assim, a pessoa armazena sua consciência ou alma em um stack: implantes na base do crânio.

Dessa forma, elas morrem no corpo físico, mas podem ser “reencapadas” em outro corpo, à escolha, se a pessoa for rica. Se não, o Protetorado, o governo estabelecido, providencia qualquer corpo que esteja disponível.

A morte mente e corpo acontece unicamente se esse stack for destruído.

Embora não se esclareça o momento em que ocorreu, houve uma revolução contra o Protetorado, a nova ordem governamental. Revolução esta liderada por uma mulher.

Essa mulher era a líder da Organização Envoy, um centro de treinamento de soldados de elite, os rebeldes do Protetorado.

Os ricos são chamados de Meths. Enquanto os indivíduos que vão vivendo de corpos em corpos pertencem ao grupo chamado Matusa, em referência ao personagem bíblico, Matusalém.

Personagens

Takeshi Kovacs é um Envoy, que luta contra o Protetorado. Por isso, ele é perseguido e morto por soldados desta ordem. Contudo, seu implante não é destruído. E, por isso, ele é preservado e reavivado 250 anos após, para investigar um assassinato.

Laurens Bancroft, um Matusa, extremamente rico e poderoso é aquele que contrata Kovacs para descobrir o assassino do seu corpo anterior.

Reileen Kawahara é outra Matusa, personagem antagônica e inimiga de Takeshi Kovacs.

Kristin Ortega, tenente da polícia de Bay City é designada para levá-lo até Laurens, em uma mansão acima das nuvens. Inicialmente, ela resiste a Takeshi Kovacs, mas depois se alia a ele.

Quellcrist Falconer, líder da organização chamada Envoys e da revolução, mesmo tendo morrido é parte da vida de Kovacs. Em suas alucinações, ele a vê como um guia que o aconselha sobre o caminho a seguir.

Poe, uma referência a Edgar Allan Poe é uma Inteligência Artficial, dono do hotel em que Kovacs reside.

Antes de ser morto, Kovacs aparentava a figura de um asiático. Após ser revivido, ele passou a exibir um corpo totalmente diferente.

Takeshi Kovacs começa a investigação e encontra muitos adversários, inclusive sua própria irmã.

Atores

Will Yun Lee é o primeiro personagem Takeshi Kovacs;

Joel Kinnaman, de Robocop, interpreta o personagem Takeshi Kovacs reencapado;

Renée Elise Goldsberry é Quellcrist Falconer;

Martha Higareda é a Tenente Kristin Ortega;

James Purefoy interpreta Laurens Bancroft;

Chris Conner interpreta Poe e,

Dichen Lachman interpreta a personagem Reileen Kawahara.

A Ambientação

A locação de Altered Carbon é em Bay City, uma cidade do futuro, antiga São Francisco, na Califórnia.

O clima é sempre chuvoso.

As ruas são sujas com imensos outdoors chamativos em neon e vapores que saem dos bueiros. A estética lembra em muito a de Blade Runner, de 1982.

As pessoas são taciturnas, sempre vestidas de preto ou tons escuros e a fachada dos “comércios” exibem hologramas, sobretudo de prostituição.

A iluminação mostra a decadência do ambiente e as inúmeras cenas de luta são extremamente violentas e sangrentas.

Típico cenário underground.

A crítica

A série Altered Carbon pode ser interpretada como um paradigma do mundo atual. O futuro exposto na série mostra a sociedade civilizada tal como é desde sempre – selvagem.

O futuro é caótico, triste e sem esperança.

A sociedade é totalmente decadente, corrupta, degenerada, com o único diferencial de uma tecnologia mais avançada. Se é que se pode considerar a comercialização do corpo humano como um avanço tecnológico.

De qualquer modo, há uma intenção subliminar no texto: induzir ao questionamento sobre determinadas condutas e práticas sociais.

Utilizando um discurso filosófico e psicológico, com citações freudianas sobre as necessidades básicas do homem, o enredo levanta esses questionamentos.

Entretanto, o interessante sobre esta série é exatamente esta intenção de extrapolar os limites do domínio científico-tecnológico descontrolado.

Nesse sentido somente, a estrutura dramática é mais complexa e contemporânea.

Um diferente olhar da espécie humana

Trata-se, então, de uma discussão sobre a relevância da vida humana. Sobre o que ela realmente vale sobrepujando o que é visível. O que é superior à “capa”, o revestimento exterior.

O nome Altered Carbon, já aponta para essa intenção, no que tange a própria criação. A mudança de um corpo para outro, alterando sua constituição, embora o elemento principal da constituição humana se mantenha.

De fato, importa o que se armazena no recôndito dessa capa. O que se traduz pela máxima clichê: o essencial é invisível aos olhos.

Em Altered Carbon, conhecimento, inteligência, experiências, memórias, lembranças, quanto mais elevado o “padrão”, melhor será a próxima existência.

E, o acúmulo de riquezas mostra cada vez mais a desigualdade social.

Sendo assim, Altered Carbon tem a singularidade de estabelecer esse conflito entre a emoção e a lógica.

Sobretudo, no discurso do personagem principal, quase filosófico da condição humana. A cada episódio, seja no prólogo ou ao longo dele, Takeshi Kovacs tem uma atitude meditativa diante das circunstâncias.

Homem vs máquina

Para um soldado de elite acostumado a agir, obedecer a comandos, o modo contemplativo foge a essa dinâmica.

Entretanto, visto deste modo, Altered Carbon é coerente com o gênero cyberpunk.

Este estilo traz exclusivamente a dimensão do conflito homem versus a máquina.

Entretanto, os grandes questionamentos sobre o ser, a criação e o criador, a vida e a morte, não existem em uma ficção cyberpunk. E, em Altered Carbon esse conflito é elevado a um plano quase religioso.

Esses são elementos poderosos de construção dos personagens em Altered Carbon.

Nessa série, o mais elementar e bizarro personagem, porque eles surgem lá no meio da temporada, são bem elaborados.

Ficção científica ou outro gênero qualquer, importante é saber contar uma história. Sejam os personagens estranhos ou não, o que conta realmente é como eles serão apresentados ao público.

Por fim, Altered Carbon tem uma boa narrativa, mas uma alternativa intelectual de entretenimento.

Pode funcionar até como um despertar deste estado de torpor imposto pela tecnologia na sociedade contemporânea.