Better Call Saul: a outra cara do advogado de sucesso de “Breaking Bad”

Quando se ouve pela primeira vez falar em Better Call Saul, sem qualquer referência ou esclarecimento anterior, pensa-se em comédia. O título induz a uma ideia de leveza, de displicência em relação ao conteúdo.

Vince Gillighan, criador da série, revelou uma proposta inicial de realizar uma sitcom de meia hora sobre o personagem principal.

Better Call Saul é prequência – sequência que conta o início de uma história – da premiada Breaking Bad, finalizada em 2013. É história de James Morgan “Jimmy” McGill em seu percurso até se transformar em Saul Goodman, personagem de Breaking Bad.

Entretanto, a série é drama/ação, do mesmo criador de Breaking Bad, em parceria com Peter Gould. Estreou em 2015, na rede AMC com episódios que duram, em média, até uma hora. Atualmente, está na quarta temporada, mas a AMC já renovou para um quinto ano, em 2019.

Originalmente, a série foi distribuída pela Sony Pictures. Europa e América Latina receberam a série através do Netflix.

Enredo de Better Call Saul

O enredo de Better Call Saul é complexo. Contudo, pode ser resumido na linha do percurso de Jimmy McGill até sua transformação em Saul Goodman.

Jimmy McGill é o personagem central de Better Call Saul enquanto Saul Goodman é personagem de Breaking Bad.

McGill é um advogado problemático que vive de pequenos golpes, com aversão a litígios e tribunais. Ele vive de trapaças, furtos, roubos até se envolver com um traficante como resultado de um desses golpes, Tuco Salamanca.

Já Saul Goodman é o melhor criminalista da cidade de Albuquerque, Novo México, mesma locação de Breaking Bad.

Múltiplas personalidades

De fato, Jimmy tem uma tendência a criar personalidades alternativas para fugir de sua realidade caótica. Tanto é que no prólogo da primeira temporada ele aparece como Gene Takovic, gerente de uma padaria e doceria.

Gene foi um fast forward dos criadores, no início da série. O objetivo foi unicamente estabelecer uma linha temporal relativa ao fim não aparente de Saul Goodman em Breaking Bad. Ninguém sabe se Saul morreu ou o que aconteceu com ele.

Nas cenas iniciais, Gene mostra-se saudoso de Saul que foi seu extremo oposto. Saul era trapaceiro, mas ousado. Gene é um homem medroso, tímido, trabalhando não mais como advogado, mas um mediano gerente da Cinnabon.

Em seguida, entra em cena Jimmy McGill e então a história se desenvolve em torno dele.

Histórias convergentes

A história de Jimmy se entrelaça a de seu irmão, Charles Lindbergh McGill. Chuck, como é conhecido, também é advogado e sócio do escritório Hamlin & Hamlim McGill. Ao contrário de Jimmy, Chuck é muito bem sucedido, mas foi forçado a deixar o escritório e viver em reclusão.

Isto porque ele sofre de uma doença rara: a hipersensibilidade eletromagnética. Aparentemente, Chuck é bom caráter, mas no fundo é movido por um sentimento antagônico a Jimmy.

Decerto, ele é invejoso e manipulador dos limites do irmão, testando-os sempre no seu equilíbrio, induzindo-o ao erro. Jimmy tenta ser uma boa pessoa, mas não consegue fugir do passado.

Em suas práticas ilícitas, Jimmy encontra Mike Ehrmantrau, um ex-policial corrupto, dono de um negócio escuso.

Entretanto, Mike trabalha como Chefe de Segurança na rede de fast food de Gustavo Fring, magnata, assassino e poderoso traficante de drogas.

A namorada de Saul

Inegavelmente, na história de Jimmy McGill, um personagem é decisivo para a conversão dele em Saul Goodman: Kim Wexler, sua namorada. Ela, também advogada, trabalhava em um cargo menor no escritório de Chuck.

Contudo, insatisfeita pela insegurança profissional no escritório e decidida a ser renomada, constrói carreira em outro lugar, sendo bem-sucedida. O sucesso de Kim em contraste ao fracasso da vida de Jimmy, é o gatilho necessário para transmutá-lo em direção a Saul.

Outros personagens recorrentes de Breaking Bad fazem parte dessa trama.

Desse modo, demonstra-se como entraram na vida de Saul Goodman, que continuam na trama de Breaking Bad.

Hector Salamanca chefe do cartel de drogas, tio de Tuco Salamanca e Nacho Varga, braço direto de Tuco.

Os atores de Better Call Saul

Bob Odenkirk interpreta Jimmy McGill, Saul Goodman e Gene Takovic;

Michael McKean interpreta Charles (Chuck) McGill;

Jonathan Bank interpreta Mike Ehrmantrau;

Rhea Seehorn é Kim Wexler;

Mark Margolis interpreta Hector Salamanca, dono do cartel de drogas;

Raymond Cruz é Tuco Salamanca, e

Michael Mando dá vida a Nacho Varga.

Crítica

Better Call Saul é um subproduto de Breaking Bad. Conta a história profunda do surgimento do advogado trapaceiro Saul Goodman.

Saul Goodman, na verdade, já é o pseudônimo de “It’s all good, man.” (fala rápido que você vai entender). O próprio nome é um jogo, resultado da junção dessas palavras – Saul Goodman.

Uma análise psicológica desse personagem admitiria a premissa de um transtorno de personalidades múltiplas em Jimmy McGill. Um homem que cria outras identidades para escapar da sua vida de fracassos.

Medo dos tribunais

A série é intrincada e instigante em todos os aspectos desde a sua concepção. Para série televisiva o conceito é inédito: a história de um advogado falido, que tem horror a litígios e tribunais.

Essa ideia isolada já estabelece uma nova perspectiva de narrativas, em meio a conteúdos muito semelhantes.

Normalmente, advogados, como conhecedores das leis, independente de circunstâncias conseguem burlar e vencer o sistema. É o que lhes garante o sucesso profissional.

Saul Goodman / Jimmy McGill foge totalmente a esse conceito. Saul é trapaceiro, sócio e cúmplice no mundo das drogas, e nada disso lhe garante sucesso.

Mesmo que tenha se transformado no grande criminalista de Breaking Bad, ele abraça o erro.

O gênio burro

Jimmy McGill tenta a todo custo ser uma boa pessoa, mas acaba sempre preso em emboscadas criadas por ele mesmo.

Essa dicotomia entre Jimmy e Saul é o que confere a Better Call Saul a grandiosidade que ela tem. Os personagens são intrincados, o centro e o entorno dos personagens são extremamente complexos.

A dinâmica da série é marcada pela contínua evolução dos personagens, não somente do central, mas dos coadjuvantes.

Cenários

Os cenários são cativantes e as cenas são meticulosas, bem dirigidas, pontuais, sem pressa e, ainda assim, cortadas no tempo certo.

Isto porque, o corte não demonstra a simples edição de cenas. Em Better Call Saul, o corte se refere ao silêncio. Há uma abrupta interrupção de imagens que dão intensidade ao drama. E, de repente, as cenas ressurgem.  É catártico.

Trilha sonora

Também, a trilha sonora merece um destaque especial, embora ela mesma seja quase imperceptível.

O som não é o predominante, mas é pontual sem sobrepujar a atuação dos personagens.

Por outro lado, Better Call Saul é uma espécie de novelão – americano. Porque tem as características espaciais do território americano, o que não retira dos personagens sua universalidade.

Personagens

Os personagens têm vida independentemente de situação demográfica. A história de um advogado falido, corrompido, aplicando golpes para sobreviver no mundo cão, vivendo um dilema interno.

A dualidade do ser, a eterna luta entre o bem e o mal, quem sairá ganhando com isso? Esse é um dilema que perpassa a condição humana, mas para Jimmy McGill a escolha é uma questão de sobrevivência.

Por ser universal, a história não precisa de precedentes ou de ligações. Nesse sentido, houve uma ruptura com Breaking Bad. Não é um pré-requisito ter visto Breaking Bad para entender Better Call Saul.

De qualquer modo, ambas as séries são sensacionais.

Breaking Bad foi um fenômeno. Better Call Saul parece ir além.

Cuidado! A série pode viciar (e vicia).