Black Mirror | Netflix: primeira e segunda temporada

Black Mirror é uma série da televisão britânica, Channel 4, presente também no Netflix, que estreou em 2011 e está agora na quarta temporada.

A série tem um formato inovador porque não se trata de uma história sequenciada. Ao contrário, cada episódio é uma história diferente da outra e, consequentemente, o enredo também.

Há também outra característica interessante quanto à quantidade de episódios. A cada temporada, o número de episódios aumenta em proporção aritmética.

A primeira temporada contou com três episódios, a segunda com quatro, a terceira, cinco e a quarta com seis episódios. Todos com duração de, no máximo, uma hora.

Participam da série atores renomados da indústria cinematográfica, a maior parte deles, britânicos, mas conta também com famosos nomes americanos.

Charlie Brooker, autor de Dead Set é o criador da série que agora é produzida pela Netflix.

Black Mirror: o enredo

Black Mirror aborda temas relativos à tecnologia. Cada episódio gira em torno de um recurso tecnológico utilizado de forma desmesurada, causando sérias consequências, devido a tais abusos.

Primeira Temporada

Episódio 1

The National Anthem: uma figura da realeza é sequestrada. O resgate exigido em troca de sua vida é uma exposição do primeiro-ministro, Michael Callow. Ele terá que se exibir em rede mundial praticando um ato totalmente abjeto.

O objetivo? Apenas o espetáculo.

Os atores

Rory Kinnear, Lindsay Duncan, Donald Sumpter.

Episódio 2

Quinze Milhões de Méritos: um homem, Bing Madsen, é parte de uma engrenagem que produz energia. Ele alcança tal propósito pedalando uma bicicleta diariamente.

Todos os dias ele tem a mesma rotina: acordar, pedalar, comer, assistir televisão e dormir. Vive em um ambiente virtual, dentro de uma cela.

Então, ele conhece Abi Khan, também integrante da mesma engrenagem e se apaixona por ela. Ela tem uma bela voz e Madsen estimula a se apresentar em um programa de calouros. Ele entende que este é o único meio de ela se livrar da prisão em que vive.

Ela aceita e sua vida se transforma em um verdadeiro pesadelo, pior do que o que vive.

Os atores

Daniel Kaluuya, Jessica Brown Findlay e o conhecido Rupert Everett.

Episódio 3

Toda a sua históriaLiam é um advogado que foi despedido de seu emprego. Por isso, decepcionado, ele vai a um compromisso social no qual é confrontado com uma dura realidade.

Contudo, nesta sociedade fictícia, todos têm implantes no cérebro. E, nestes implantes ficam guardadas memórias. Elas podem ser acessadas a qualquer momento através dos olhos e até serem exibidas em quaisquer telas, se necessário.

Com isso, Liam pode registrar até mesmo emoções aparentemente imperceptíveis. E, ao revê-las, ele descobre uma traição e isso o corrói até destruí-lo quase por completo.

Os atores

Toby Kebbell, Jodie Whittaker, Tom Cullen.

Segunda Temporada

Episódio 1

Volto jáMartha perde o marido, Ash, e tenta se reconectar com ele.  Dessa forma, encontra em um programa virtual a promessa dessa possibilidade.

Os atores

Hayley Atwell, Domhnall Gleeson, Claire Keelan.

Episódio 2

Urso BrancoLenora perde a própria memória e acaba sendo vítima dessa falta de identidade. Diante do caos em que sua vida se transforma, somente Jem procura ajudá-la.

Os atores

Lenora Crichlow, Michael Smiley, Tuppence Middleton.

Episódio 3

Momento Waldo, retrata um homem, Jamie Salter, que sofre de depressão. Ele se expressa por meio de um boneco de cartoon.

O cartoon é usado por empresários para criticar um político. E, acaba por angariar a simpatia do eleitorado e o próprio boneco torna-se o candidato.

Os atores

Daniel Rigby, Chloe Pirrie e Jason Fleming.

Episódio 4

Por último, no Episódio 4 – Natal, três homens estão distantes da civilização, na época de Natal. Em uma região congelada, eles contam histórias sobre os problemas decorrentes da tecnologia nessa época do ano.

O final é eletrizante.

Os atores

Jon Ham.

Crítica: Black Mirror – Temporadas 1 e 2

O mal-estar da civilização, exatamente como descrito por Sigmund Freud, em 1930, traduz e resume perfeitamente a série Black Mirror.

O parâmetro comparativo à cultura referida por Freud pode ser interpretado como à cultura tecnológica, em Black Mirror.

Até porque, o que determina o nível cultural da sociedade contemporânea é o que pode ser balizado pelo conhecimento tecnológico. Desse modo, qualquer pessoa que tente se isentar desses recursos é considerado um excluído social.

A premissa do desenvolvimento tecnológico seria a de que esses avanços facilitariam a vida das pessoas. Infelizmente, o que se tem visto atualmente é o oposto, pelo desregramento do uso.

Então, a série aborda esse tema, apontando para o confronto entre homem versus máquina.

Tecnologia e o retrocesso

Na verdade, ao longo de cada episódio o que fica claro para o telespectador é exatamente a sensação de desconforto. Relativamente a tudo o que a tecnologia pode oferecer, a soma de todos os benefícios não se compara aos malefícios.

Charlie Brooker, o criador de Black Mirror enveredou por esse caminho obscuro, desmistificando a ideia de evolução e desenvolvimento tecnológico.

Desse modo, a série é extremamente angustiante e justamente isso é o que a torna tão atraente.

A primeira temporada focalizou as mídias sociais como forma de expressão e exposição. Os três episódios da primeira temporada contemplam isso sob vários aspectos.

Sobretudo, o espetáculo da vida humana através dos meios televisivos, dos reality shows. E, a compulsão por guardar memórias em dispositivos virtuais.

“O Show de Truman”

O primeiro episódio mostra como o uso compulsivo das mídias sociais pode transformar a existência humana em mero espetáculo. Independentemente de qualquer circunstância.

Enquanto o segundo episódio já aponta como as pessoas na sociedade contemporânea são apenas engrenagens produtivas de energia. Sem qualquer outro valor.

O terceiro episódio, por sua vez, evidencia de modo contundente como essa necessidade contemporânea de registrar e compartilhar lembranças pode destruir uma vida.

Em seguida, a segunda temporada mostra um aspecto ainda mais profundo.

Em quatro episódios, o tema principal gira em torno da angústia pelas memórias perdidas e paradoxalmente o esquecimento.

O primeiro episódio lida com a dor pela perda de um ente querido e a insistência em manter esse elo. Ainda que de modo irreal, em um plano imaginário que é possibilitado por um recurso tecnológico.

É uma obra que se assemelha a Twilight Zone.

De fato, o segundo episódio tem um enredo mais próximo ainda dessa zona de desconforto.

Anônimos

Isto porque mostra o que a perda da identidade pode causar a um indivíduo. Pior ainda, quando ele é perseguido por máquinas assassinas.

Em contrapartida, o terceiro episódio revela exatamente o oposto. Uma pessoa se escondendo atrás da falsa identidade. Uma identidade fictícia de um boneco.

Todavia, a máquina em questão é o sistema político com todas as suas engrenagens articuladas para angariar eleitores.

Originalmente, o episódio Christmas foi um especial entre as duas temporadas. Contudo, no catálogo, a Netflix incluiu como integrante da segunda temporada.

De qualquer modo, a proposta da série é a sociedade contemporânea ser o resultado da manipulação dos recursos tecnológicos.

Uma proposta muito pertinente que catalisa uma discussão fundamental para esta e para as futuras gerações.

Black Mirror tem angariado uma legião de fãs ao redor do mundo com uma razão. Tem uma abordagem inovadora para uma temática tão importante.