Bruno Heim
10 de setembro de 2018 23:40

Caçador de Mentes | Série Netflix: por dentro das mentes perigosas

Behaviorismo ou Ciência Comportamental é o tema central da série original Netflix, Caçador de Mentes (Mindhunter, em inglês). Esta ciência, aplicada à criminologia e ao estudo forense, busca desvendar a motivação por trás das ações de assassinos psicopatas.

Um trabalho expositivo, quase documental sobre o início do estudo metodológico, na década de 70, que aproximou intelecto e prática. O contorno psicológico que, posteriormente, denominou-se “profiling” ou criação de perfis, que podem abranger inúmeros criminosos dentro de um mesmo escopo.

Atualmente, Criminal Profiling ou Psicologia Investigativa é uma área, de conhecimento específico, reconhecida dentro do âmbito jurídico. Ela auxilia na identificação de suspeitos em potencial para crimes violentos, abrangendo a vitimologia e as análises motivacionais dos criminosos.

Contudo, é a partir do estudo do padrão e comportamento dos assassinos violentos que surge oficialmente o termo serial killer.

A inspiração por trás da série

A série é ficcional, mas inspiração fiel da obra homônima autobiográfica do ex-agente lendário do FBI, John. E. Douglas.

Iniciador do método de criação de perfis psicológicos e método específico de interrogatório, John. E. Douglas seguiu para escrever uma série de livros da mesma temática. Escreveu Crime Classification Manual, com Robert Ressler, ex-agente que trabalhou com Douglas durante a época descrita. E, A Anatomia do Motivo (tradução livre) com Mark Olshaker, co-escritor de Mindhunter, além de outros.

Dessa forma, a série é baseada em fatos reais e retrata o surgimento do método que, atualmente, é imprescindível para as investigações criminais.

Sobre a série

O tom, misterioso e documental, foi idealizado por David Fincher, produtor executivo e diretor de quatro episódios desta primeira temporada.

A filmografia de Fincher é famosa pela composição de obras com essa temática psicológica criminal. O sucesso Seven, Os Sete Crimes Capitais, de 1995 – com Morgan Freeman e Brad Pitt – aborda, justamente, a caçada de dois policiais a um serial killer cuja motivação era os sete pecados condenados pela Igreja Católica.

Ainda, Zodíaco, de 2007 – com Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo e Robert Downey Jr.- retrata a história real do serial killer que assombrou a cidade de São Francisco, nos EUA, durante os anos 60 e 70.

Em Caçador de Mentes, Fincher estabelece uma estética fria.

Em segundo plano, a fotografia verde acinzentada tem clara intenção de evocar, em todo momento, um sentimento de obscuridade e morbidez. Os objetos simétricos, quadrificados, os tons pastéis e os cenários vazios completam a pretensão de isolamento e incômodo do diretor.

A narrativa, apesar de lenta, é extremamente detalhada. Ao incauto, pode transparecer cansativa, mas, de fato, foi brilhantemente trabalhada para suscitar o esforço intelectual dos personagens ao longo de todo o processo.

O objetivo da série não é a morte, mas o estudo acadêmico dos “por quês” da mente criminosa, a lógica intrínseca a cada psicopata. E, assim como em tempo real, a narrativa artística quer estabelecer a minúcia da metodologia acadêmica.

Interpretação

Os diálogos intercalam-se na relação entre os três personagens mais importantes da trama e as entrevistas com assassinos em série. Teoria versus prática. As entrevistas são detalhadas e complexas. E, proporcionam os momentos de maior suspense da série, quando transparece a loucura dos criminosos e os requintes dos assassinatos.

Até a interpretação dos personagens é – propositadamente, quero acreditar – robotizada. Quanto mais aprofundados no conhecimento científico, mais desumanizados os personagens ficam. Tudo para evocar a construção, demorada e cuidadosa, do método pioneiro e inovador que converge ciência comportamental e criminologia.

Trilha sonora

Um toque refrescante na série e que estabelece um perfeito contraponto com a frieza da ambientação é a trilha sonora. Composta, em grande parte, por hits populares dos anos 70, Jason Hill, ironicamente, traz vida à série com músicas temáticas e arranjos inquietantes.

If You Could Read My Mind, Phsyco Killer (Talking Heads), I Never Cry (Alice Cooper) e até A Quinta de Bethoveen compõem o repertório vivaz do produtor musical.

O Enredo de Caçador de Mentes

O protagonista, Holden Ford é baseado no ex-agente real do FBI, Jonathan E. Douglas e interpretado por Jonathan Groff.

A história retrata o agente negociador que fica traumatizado e frustrado, após perder uma vítima e o próprio criminoso, em um homicídio seguido de suicídio. Ele, então, decide voltar à universidade em busca de estudar o comportamento dos criminosos.

Por fim, dentro do próprio FBI, ele é realocado para trabalhar com o agente Bill Tech (inspirado no ex-agente real Robert Ressler) na Unidade de Ciência Comportamental (Behavioral Analysis Unit), já existente, mas descredibilizada.

Completando o triângulo de personagens principais está a pesquisadora e cientista comportamental, Dra. Wendy Carr (Anna Torv). À medida da evolução dos episódios, ela adquire um papel importantíssimo na série como organizadora do processo acadêmico-científico atentado pelos agentes. A Dra. Carr também foi baseada em uma pessoa real, a Dra. Ann Wolbert Burgess.

No traço, talvez, mais contundente de toda a narrativa estão as entrevistas dos dois agentes com os assassinos. Sobretudo como forma de estudo e aplicação do método que estava sendo desenvolvido.

Na mente dos criminosos

As entrevistas mais notórias foram com o famoso necrófilo serial killer Edmund Kemper, interpretado – brilhantemente – por Cameron Britton. Kemper foi responsável, na vida real, pelo assassinato em série de dez pessoas, incluindo seus avós paternos e sua mãe, Clarnell Strandberg-Kemper.

A inteligência destaca-se como característica fundamental no discurso do psicopata, além dos traços clássicos de frieza e cálculo. O agente Ford desenvolve uma relação de proximidade e – evocando sentimentos diversos no espectador – até atenção e cuidado com o maníaco.

O agente acaba desestruturando toda sua vida particular, em nome do processo e faz uma análise empírica e introspectiva, buscando traços que assemelhem suas características às monstruosidades que passa a contemplar. A tentativa é de humanizar o que antes era interpretado como anormalidade e, assim, conseguir a padronização de um comportamento doentio.

Caçador de Mentes: Crítica

Os personagens são diferentes e essas diferenças se completam para alcançar um todo equilibrado para a construção do estudo científico.

Caçador de Mentes é uma série excelente, completa, detalhada e minuciosa, com uma narrativa complexa. Esta narrativa difere da maior parte das séries do mesmo tema, pela ausência descritiva dos crimes hediondos.

Não há brutalidade visual, mas há extremo rebuscamento verbal.

Uma série sem sangue, mas assustadora. Sem sequências de ação, mas intelectualmente estimulante.

Belas interpretações e um cenário que amarra o objetivo final: levar o espectador para dentro da mente, não apenas do criminoso, mas dos primeiros profilers, que construíram, de maneira inédita, a criminologia comportamental.

A segunda temporada começou a ser gravada em final de abril de 2018, com estréia prevista para 2019.

Não perca Caçador de Mentes no Netflix.

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