Fitoor | Filme Netflix: ela foi treinada pela mãe para despedaçar corações

Fitoor é um filme romântico indiano, incluído ao catálogo Netflix e dirigido por Abhishek Kapoor. A produção é de 2016 e foi inspirada no livro Great Expectations, do escritor inglês Charles Dickens.

Todo o elenco é composto de atores indianos, a trilha sonora foi feita por músicos indianos e também as locações, na Índia.

Além de dirigir, Kapoor também assina o roteiro em parceria com Supratik Sen. O filme teve produção executiva por Siddarth Roy Kapur.

Embora baseado na obra de um dos mais renomados escritores ingleses, o filme é eminentemente indiano. Inclusive, a língua oficial adotada é a normativa de unificação na Índia – o hindu. Em muitos momentos, os atores intercalam o hindu com inglês, mas até para isso há um propósito.

Fitoor é uma palavra indiana que traduz perfeitamente o sentido do filme. Em inglês significa Passion, Obsession, Infatuation.

Este filme narra uma história de amor obsessivo e incontido que não se detém diante de impossibilidades.

Great Expectations, Charles Dickens

Fitoor foi baseado na obra Great Expectations, de Charles Dikens. David Trotter – renomado professor da Oxford, crítico literário e escritor do Prólogo desta obra – considera o livro de Dickens como uma obra de redenção moral.

O livro tem uma série de variantes, personagens bem consistentes, cenários esmiuçados e fotografia da sociedade vitoriana inglesa do século IX.

Em breve resumo, esse livro narra a história de Philippe Pirrip – ou Pip – um órfão criado em condições muito humildes. Ele é assediado por um fugitivo chamado Magwitch, que acaba sendo como uma sombra em sua vida.

Dessa forma, Pip conhece uma jovem na Casa Satis que vai trabalhar como serviçal: Estela Havisham, de família muito rica. Apaixona-se por ela, mas a diferença de classe o impede de se aproximarem.

Em seguida, a mãe de Estela, a Sra. Havisham, descobre o amor de Pip e o estimula a melhorar de vida, para no futuro ser digno dela. Contudo, isso é falso.

A Sra. Havisham é uma mulher amarga que sofreu uma terrível perda em sua vida. E, educa sua filha para ser como ela e ver o mundo conforme tal ótica.

Em uma reviravolta, Pip recebe uma pequena fortuna de um benfeitor desconhecido que ele pensa ser a Sra. Havisham. Por isso, vira as costas aos familiares e amigos, e vai residir em Londres.

Lá, ele vive de modo desregrado, envolvendo-se inclusive com o crime e acaba perdendo toda a fortuna. Passa, então, a demonstrar um falso arrependimento, que ele tenta mascarar com algumas boas atitudes.

Enfim…

Finalmente, depois de muitos, muitos dramas, inclusive o assassinato de sua irmã, ele retorna para Kent, sua cidade natal. Reencontra Estela, agora viúva e sofrida, e acredita que ficarão juntos para sempre.

Este é apenas um breve resumo desta obra de Dickens, que trata das sutilezas do comportamento humano.

Ainda, aborda questões sociais contundentes como as diferenças de classes, o poder do dinheiro, o submundo do crime, enfim.

A construção de cada personagem é milimetricamente elaborada à exaustão e cada um tem desempenho específico ao longo da narrativa.

Enfim, é uma obra canônica e extraordinária.

Fitoor: enredo

Fitoor conta a história de um jovem, Noor Nizami, que ainda criança se apaixona por Firdaus.

Ele é pobre, mas não miserável, vive na região da Cashemira, na Índia com sua irmã e o seu cunhado, Jagirdar.

Inicialmente, a Cashemira está envolta em uma revolução civil com ataques por toda a parte. Prisões são realizadas e alguns presos fogem escondendo-se das tropas. O clima é tenso.

Uma noite, ao retornar para casa, Nizami é atacado por um homem fugitivo, Moazam. Ele ameaça Noor de morte, caso ele não lhe traga provimentos e roupas. Noor lhe dá comida e roupas e ele se vai. Ele nunca mais teve notícias de Moazam.

Em outro ponto da trama, Jagirdar trabalha como carpinteiro. Quando Noor era ainda menino, ele o leva ao palácio de Hasrat Begum, uma mulher muito rica. E, nesse lugar, ele conhece, Firdaus, filha de Hasrat, se encanta por ela e passa a viver guiado por essa paixão.

Desde menino, Noor mostra sua vocação para as artes plásticas, pintando belos quadros.

Ao descobrir sua vocação e paixão por sua filha, Begum o incentiva a progredir, para estar à altura de Firdaus. Ele é patrocinado, supondo ser por Begum e vai para Dehli estudar e, depois, para Londres expor suas obras.

Contudo, permanece ingênuo como o menino de Cashemira. E, sua devoção por Firdaus é imutável e ele é dominado por essa obsessão.

Firdaus está sempre à espreita dele, manipulando-o, guiada pela mãe e ele quase enlouquece ao vê-la com outro homem.

Elenco

Aditya Roy Kapoor é Noor Nizami.

Katrina Kaif desempenha o papel de Firdaus.

Tabu é Hasrat Begum.

Ajay Devgn é Moazam.

E, Jagidar é interpretado por Namit.

Crítica: Fitoor

A Cashemira é um território que fica em uma região dividida entre a Índia, o Paquistão e a China. Assim, desde 1947, o conflito nessa região é permanente, objetivando a integração do território.

E com o fim da Segunda Guerra Mundial, iniciou-se o processo de descolonização dos países dominados pelo imperialismo europeu. Entretanto, isso deflagrou conflitos internos entre os países colonizados pela disputa territorial.

A Cashemira é um exemplo dessa disputa, porém em 1972, os três países fizeram um acordo buscando a pacificação desse conflito.

Este acordo vigorou até 1990, quando novos conflitos eclodiram. De 2000 até os dias de hoje, esta região continua sendo alvo de hostilidades entre tais países.

Nesse panorama se passam as primeiras cenas de Fitoor, que, a bem da verdade, são as únicas substanciais na película.

“O Oriente como invenção do Ocidente”, é uma frase de Edward Said, em seu livro Orientalismo.

Essa colocação é extremamente pertinente para expressar o sentimento sobre Fitoor.

Excetuando-se as cenas iniciais que contextualizam a região da Caxemira em um cenário geopolítico, todo o resto repete a dramatização do homem ocidental.

Em grande medida, essa perspectiva destrói o roteiro porque se percebe, claramente, um discurso “ocidentalista”.

Mais do mesmo

A dramatização, o ritmo, a construção dos personagens, excetuando-se a trilha sonora, tudo respira ao Ocidente.

Os próprios diálogos, inicialmente todos em hindu, passam a inglês repentinamente, quando o roteiro sai do núcleo da Cashemira. Mesmo mantendo-se a interação entre os personagens indianos. Decerto que no núcleo londrino, o idioma inglês não causaria qualquer estranheza.

O próprio romance entre Noor e Firdaus é sem graça e insosso e muito se deve a atriz intérprete dessa personagem.

Noor, por outro lado, já é menos comedido em sua obsessão por Firdaus. O ator conseguiu dar certa intensidade ao personagem.

Verdade seja dita que, o único personagem realmente consistente é Hasrat Begum, a mãe de Firdaus. Uma mulher amarga, viciada em ópio, autodestrutiva e manipuladora.

Contudo, a atriz conferiu complexidade e níveis a personagem. Begum era uma mulher extremamente sofrida pela própria condição feminina dentro do sistema patriarcal indiano.

Submeteu-se ao arbítrio do pai dominador, sucumbiu e sublimou seus sentimentos e se transformou em puro amargor. E, ainda tentou perpetuar essa herança em sua filha, Firdaus.

Excelente atuação de Tabu, a atriz que desempenhou esse papel.

ALERTA DE SPOILER!

Outra cena contundente é a morte da irmã de Noor. Ela vai ao encontro dele e, no meio da rua, no exato momento em que passa, explode uma bomba.

Ele e Jigi (Jagidar) assistem a tudo, atônitos e desesperados. Ainda assim, Noor sai correndo do funeral da irmã para ver Firdaus – ? – em uma clara demonstração de obsessão até infantil.

Em suma, Fitoor ficou muito aquém do que poderia ter sido alcançado.

Isto porque, tendo sido baseado em uma obra do porte de Great Expectations, a sua construção não lhe faz jus.

É quase que “O Diário de uma Paixão” mal feito. É um filme bollywoodiano, o que não condiz com a natureza da pretensão.