Marco Polo: análise da série do mercador veneziano original do Netflix

Marco Polo é uma série original Netflix lançada em 2014 e cancelada em 2016, exibindo apenas duas temporadas.

A série foi produzida pela Netflix em parceria com The Weinstein Co. e, teve um orçamento de produção de U$ 200 milhões.

Enquanto, o criador é o mesmo de “O Tigre e o Dragão – A Lenda Verde”, de 2016 e A Cabana (2017), John Fusco.

Assim, os vinte episódios relatam as aventuras de Marco Polo, comerciante veneziano, que viveu entre 1254 e 1324.

O elenco é multinacional com atores italianos, britânicos e asiáticos.Marco E, as locações da série foram em cidades da Itália, Hungria, Eslováquia, Malásia e Cazaquistão.

Marco Polo: o enredo

Marco Polo é um dos personagens reais mais famosos da história mundial e a série da Netflix busca prestar tributo às suas conquistas.

Inicialmente, a história retrata a expansão do império de Kublai Khan. Este que, por sua vez, era filho do infame conquistador Gengis Khan.

Neste contexto, Marco Polo, que era filho de um rico comerciante italiano, viaja com seu pai e seu tio para as regiões distantes da Mongólia. Região esta central para o império de Kublai Khan.

Na verdade, tais viagens eram expedições mercantes que ele e sua família faziam na famosa Rota da Seda mediterrânea.

De fato, o maior desejo de Kublai Khan era se transformar no Imperador do mundo, não somente da Mongólia e da China. Para isso, poupava a vida de ninguém. Nem mesmo de seu filho, Jingim, o qual enviava em missões acima de sua capacidade militar, para morrer.

Desse modo, a barbárie dominava um império cheio de intrigas e tramas, articuladas contra Khan, dentro e fora da corte. Internamente, os próprios políticos tentam alcançar o poder e por fora, Jia Sidao, o ardiloso chanceler de Xiangyang intentava o mesmo.

A cidade protegida

Xiangyang era a cidade fortificada, atual China, primeira estratégia de Kublai Khan para dominar o mundo. O imperador da China, moribundo, era um alvo fácil e a Imperatriz Chabbi era impotente diante dos ardis de Jia Sidao.

Desse modo, para seguir com suas expedições, Marco Polo era obrigado a passar por lugares assolados pelas hordas do reino de Kublai Khan.

Assim, em um desses vilarejos totalmente destruídos, Marco Polo e família são capturados, levados em cativeiro e logo levados à presença de Khan para serem julgados.

Entretanto, Niccolò Polo já conhecia Kublai Khan. E, tinha um arranjo comercial com o imperador que o permitia cruzar seu território durante as excursões da rota da seda. O que Marco Polo não sabia é que seu pai não havia cumprido sua parte do acordo.

Por isso, para fugir da morte, Niccolò Polo abandona o filho no império para servir como escravo de Khan.

Entretanto, mesmo como prisioneiro, Marco passa a ser treinado nas artes marciais por outro prisioneiro. Cem Olhos foi poupado por Khan para treinar seus escravos e exército nas artes marciais. E, Cem Olhos passou a ajudar Marco Polo a aprender a sobreviver naquela terra.

Ao final de algum tempo, Polo alcança certa confiança de Khan e é enviado em missões como embaixador, em nome do império. Mesmo assim, a relação dele com o Khan é extremamente vulnerável e sua vida está sempre em perigo.

Para completar, o comerciante envolve-se emocionalmente com a chamada Princesa Azul, filha de Khan. E, tudo passa a se complicar ainda mais para Marco Polo.

Os atores

Lorenzo Richelmi, ator italiano, interpreta o papel de Marco Polo.

Benedict Wong é o terrível Kublai Khan.

Pierfrancesco Favino é o pai de Marco, Niccolò Polo.

Tom Wu, por sua vez, interpreta Cem Olhos

Zhu Zhu é Kokachin (A Princesa Azul)

Remy Hii  é o Príncipe Jingim, filho do Khan.

Chin Han interpreta o chanceler Jia Sidao.

Crítica

A série Marco Polo foi um dos maiores empreendimentos nas produções da Netflix. Entretanto, infelizmente, não deu certo.

Desde o momento inicial, a série não contém os elementos de apelo para gerar interesse real do público pelos personagens.

Embora seja uma produção grandiosa, a narrativa não sustenta a trama. Sobretudo, porque os criadores não pareceram muito preocupados em fundamentar historicamente o personagem.

Os dados históricos são absolutamente incongruentes e desconexos.

A história não tem começo, não se desenvolve para um lugar específico e o pior de tudo, não tem um fim. Qualquer fim que seja.

Se fosse um personagem qualquer situado naquele período de tempo, a narrativa mesmo fictícia, seria muito mais crível. Entretanto, Marco Polo é um personagem histórico muito famoso que viveu no período das grandes navegações.

Dessa forma, o maior pecado dos criadores foi não situá-lo dentro desse espectro temporal histórico, ainda que com uma releitura dos fatos.

A relação de Marco Polo é mundialmente consagrada e conhecida com Gengis Khan, não Kublai Khan.

Erro cronológico

Isto é, a própria cronologia da vida de Marco Polo está equivocada. Ele teria que ter vivido o suficiente para atravessar o período de dois impérios.

Não é isso que consta dos relatos históricos, nem mesmo do livro escrito por Marco Polo.

Isto poderia ter sido interpretado dentro de uma verossimilhança diferente, ou seja, caso os roteiristas tivessem elaborado outra proposta para o personagem.

Por exemplo, se Marco Polo tivesse alcançado uma longa vida e estivesse velhinho? Pura ficção, porém aceitável e, com o ritmo e os elementos certos o texto teria sido muito mais atraente.

Todavia, a grandeza da série está unicamente nas ambientações que remetem ao clima de terror das barbáries daqueles conquistadores. Todo o mérito da produção está nesse quesito.

Excessos e decessos

E, como sempre, para alcançar um público mais ávido, muitas cenas de sexo explícito. Até isto, no contexto da série interpreta-se mais como apelação do que necessário ao enredo e com validade artística.

Contudo, nem esse artifício foi o suficiente para garantir sucesso de continuidade à série.

Além disso, o desempenho de grandes atores foi mediano e sofrível. Eles mesmos não conseguiram sustentar seus personagens dentro de um texto tão perdido.

Benedict Wong, por exemplo, é um grande ator britânico. Quem não se lembra de Wong, seu personagem no sucesso da Marvel, Doutor Estranho, de 2016?

Entretanto, assim como Kublai Khan, Wong teve uma atuação que não se destacou. O personagem de Khan é historicamente muito forte, mas ficou sem vigor.

O mesmo pode se atribuir ao próprio Lorenzo Richelmi, no papel do Marco Polo. O personagem foi pouco explorado. Sequer houve qualquer alusão às Aventuras de Marco Polo, um elemento fundamental para a composição desse personagem.

Por outro lado, Joan Chen que interpreta a Imperatriz Chabi, de Xiangyang, foi muito competente em seu papel. Uma atriz chinesa, premiada, que conseguiu superar um texto limitado.

Conclusão

Enfim, a série Marco Polo perdeu-se na proposta inicial do tema. O personagem não teve uma gênese, o que até os personagens de história em quadrinhos, têm. Quanto mais um indivíduo real e fundamental para o curso da história mundial.

A trama se desenvolveu muito mais em torno de Kublai Khan do que de Marco Polo. Os episódios retrataram as guerras e as batalhas pela expansão do território dominado pelo filho de Gengis Khan.

Por fim, a série não foi renovada para uma terceira temporada. Contudo, o final da segunda temporada não dá um desfecho plausível ao enredo. Muitas lacunas ficaram abertas e, os fãs que a produção conseguiu ficaram extremamente insatisfeitos com o fato.

De fato, foram duas temporadas, U$ 200 milhões gastos na produção e uma pergunta: que fim levou Marco Polo?