Toc Toc | Netflix: porquê mania todo mundo tem um pouco

Em torno do filme “Toc Toc“, é possível termos uma pequena ideia sobre como é sofrer de Toc – Transtorno Obsessivo Compulsivo. Contudo, uma doença psiquiátrica que acomete, hoje, cerca de 2 % da população mundial. No Brasil, estima-se que em torno de quatro milhões de pessoas sofram com essa enfermidade.

Os primeiros casos diagnosticados como doença, datam de 1838. Contudo, certamente, esta é uma enfermidade bem mais ancestral. As pessoas de qualquer época sempre sofreram de certas “manias”, mas a ciência avançou muito somente no último século.

A partir do final do século XVIII é que a medicina foi capaz de catalogar muitas doenças até então desconhecidas. No campo da psiquiatria, o livro Traité sur la manie, de Pinel, é a sua obra inaugural. As “manias” até então eram vistas como loucura.

No campo da medicina, a psiquiatria evoluiu bastante nesse período e as instituições passaram a humanizar mais os tratamentos.

Da loucura à cura

Entretanto, o advento da psicanálise introduziu as terapias como forma de tratamento para os considerados “maníacos compulsivos” – os portadores de TOC. Elas proporcionam uma alternativa para o tratamento convencional, dando um conforto maior para os que sofrem desses transtornos.

Atualmente, TOC é uma doença mais facilmente diagnosticada pela facilidade do acesso a informações sobre ela.

Pessoas que antes sofriam anos a fio com transtornos, sendo segregadas por um comportamento obsessivo, agora podem ser tratadas.

O filme Toc Toc mostra seis pessoas, procurando um médico renomado e se encontram em sua sala de espera.

Toc Toc: Enredo

Toc Toc é uma Comédia Espanhola, de 2017, distribuída pela Warner Bros. O filme foi dirigido por Vicente Villanueva, vencedor de mais de 150 prêmios em sua carreira.

Seis pessoas, sofrendo de transtornos compulsivos, TOC, se encontram na sala de espera de um famoso psiquiatra, o Dr. Palomero. Um médico tão requisitado que a fila de espera para uma consulta com ele, pode levar até um ano.

O problema é que todas essas pessoas tiveram suas consultas marcadas para o mesmo horário, o que já foi motivo de transtorno. A culpada é Tiffany, secretária do Dr. Palomero, que é muito atrapalhada.

Ao invés de tentar apaziguar os ânimos, ela os excita cada vez mais com reprimendas, levando-os a verdadeiras crises de TOC. Toda vez que um deles passa por sua sala, ela dá uma desculpa pelo atraso do médico.

Reunidas, essas pessoas evidenciam seus comportamentos estranhos e começam a interagir umas com as outras. Inicialmente, elas são hostis, mas Emilio, que tem a compulsão por números, quebra o gelo com seu bom humor.

Terapia em grupo

Enquanto eles aguardam o Dr. Palomero, que está muito atrasado, começam a realizar entre eles mesmos uma espécie de terapia de grupo.

Federico, que sofre da Síndrome de Tourette, e Emilio, lideram, fazendo com que todos se exponham.

Assim, Lili, Blanca, Ana Maria, Otto, Federico e Emilio buscam a cura e passam a descobrir que podem obtê-la sozinhos, sem precisar do médico. Eureca!

Tudo se passa na sala de espera do Dr.Palomero, que nunca aparece. As crises se intensificam a cada momento.

Ana Maria quase tem um enfarto, Blanca não pára de lavar as mãos e até o cabelo. Otto não anda na sala porque o tapete é cheio de listras e Lili vive repetindo tudo que diz.

Contudo, aparentemente o pior de todos é Federico, que só fala obscenidades, mesmo sem querer.

Elenco

No elenco está Paco León, que fez a dublagem do leão Alex, na trilogia Madagascar, na versão espanhola. Personagem principal em premiados filmes na Espanha, ele também é produtor e diretor.

Alexandra Jiménez é uma atriz espanhola, muito premiada, embora com uma carreira bastante recente. Dublou a personagem Olivia Overkill, em Minnions, de 2015. Ela é atriz e escritora conhecida por La Pecera de Eva, de 2010, La Zona, de 2017, série televisiva e Les Distancies, de 2018.

Rossi de Palma, atriz e modelo espanhola. Currículo invejável. Ficou famosíssima com o filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Pedro Almodóvar e fez vários filmes dele. É uma atriz premiada com um rosto muito exótico.

Oscar Martinez é um renomado ator argentino com uma longa carreira. Autor e também diretor de várias peças teatrais premiadas. Entre inúmeros filmes, peças teatrais e séries de televisão, ele interpretou Mozart, no teatro, em 1983.

Adrián Lastra é também músico, tendo participações relevantes, nas versões espanholas de peças musicais. Billy Elliot, em 2017, Flashdance, em cartaz de 2004 a 2005 e Ragtime, em 2005.

Inma Cuevas, nascida em uma família tradicional espanhola, a família Aragon é uma atriz renomada do teatro espanhol. Ganhadora do Prêmio de Melhor Intérprete Feminina em Ficção Nacional. Também participou da série La Zona, em que atuou Alexandra Jiménez.

Nurria Herrero é uma atriz mais jovem, mas muito talentosa. Ficou conhecida por Rabia (2015) e Como o cão e o gato (2007). Atriz muito promissora. Trabalho brilhante em Toc Toc.

Crítica

Toc Toc é uma comédia espanhola hilária, dirigida por Vicente Villanueva. O tema central é a doença conhecida como Transtorno Obsessivo Compulsivo – TOC, abordado no filme pela veia cômica.

Apesar de ser uma enfermidade, de cunho psiquiátrico, os comportamentos dos portadores de TOC podem ser bastante caricatos. Por esse viés o texto foi encaminhado, permitindo aos atores desenvolverem personagens muito engraçados.

Segundo Pirandello, o riso só existe em face do drama, da tragédia pessoal. A comédia se configura em uma nova leitura das tragédias humanas saturadas pelos elementos da dramatização.

Uma comédia teatral

Toc Toc mostra exatamente isso, de um modo um tanto mais extravagante, sem o qual a comédia inexistiria. O drama dos transtornos de pessoas acometidas pela enfermidade pode ser bastante teatral, até mesmo na exteriorização desses comportamentos.

O texto é bem escrito, os diálogos bem desenvolvidos e os atores têm um destaque especial.

Há uma atmosfera realmente teatral no filme pelo modo como os atores interpretam. As cenas são fluidas, com uma movimentação intensa e aspecto de continuidade, como se não houvesse interrupções ou cortes.

Muito disso se deve ao próprio cenário, onde se desenvolve o texto: a sala de espera de um consultório médico. Os atores tiveram que fazer daquele espaço, contíguo à sala da secretária e o banheiro, todo o ambiente para interpretação.

Então, esse vaivém de um lado para o outro somado à própria interpretação de cada personagem confere a Toc Toc a classificação de uma excelente comédia. Além disso, é sempre muito revigorante assistir a filmes que abordem questões por outro prisma, senão o hollywoodiano.

Crescimento dos filmes europeus

O cinema europeu traz essa nova abordagem, essa nova ótica. Honra seja feita que sempre foi assim. Entretanto, os blockbusters acabaram por dominar a indústria cinematográfica, forçando o espectador ocidental a consumir produtos sempre semelhantes.

Embora economicamente a indústria ali também popularize seu método, a abordagem européia, via de regra, consegue ser mais humanizada.  Esse é o diferencial: a arte pela arte. O ator consegue desenvolver seu personagem e dar a ele a dimensão desejada.

Toc Toc é um filme engraçado, apesar de tratar de uma doença, que pode ser considerada também como “mal do século”. Passa-se despercebido muitas vezes às pessoas, que podem sofrer desse mal e seguem pela vida, transtornados.

O filme, apesar de cômico, traz essa dimensão do humano e mostra como a solidariedade é bem mais eficaz do que qualquer outro tratamento convencional.

A máxima do filme é que pessoas precisam de pessoas para ser felizes e com muito humor fica ainda melhor.

Toc Toc está disponível para ser assistido no Netflix. Vale a pena conferir a este engraçadíssimo filme. Aproveite!